sábado, 22 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 3 - Cap 2


Após passar horas investigando as amostras coletadas no dia, fazendo anotações e pesquisando pela Internet e por livros eletrônicos, o corpo de Luzmarina dava os sinais da exaustão que ela tanto detestava. 

Quanto mais pesquisava e estudava, mais ela descobria que muito mais precisava ser feito, e as vinte e quatro horas do dia eram escassas demais, principalmente quando ela ainda tinha que separar algumas dessas horas para as necessidades básicas e indispensáveis do corpo, sendo que o sono lhe roubava preciosas sete horas, tempo esse que ela não conseguia reduzir de jeito nenhum. 

Enfiou-se debaixo do chuveiro na esperança de que a água quente aliviasse as dores do pescoço e ombros, causadas pelas longas horas encurvada sobre o microscópio e o computador. 

E era quase como uma sonâmbula que se encaminhava para a cama de campanha, porém ampla, confortável e quente, caindo sobre ela como se caísse em nuvens, pois mal sentia o atrito de seu corpo entre o colchão e o acolchoado. 

Era nesse momento da semi-inconsciência, que se preparava para o sono profundo, em que Luzmarina era arrebatada para as sensações que extrapolavam os limites do corpo, alcançando a inconsciência. 

E, pela manhã, quando acordava, apenas tinha a vaga lembrança do ato como um sonho bom e prazeroso, em que ela sempre se convencia de que era efeito consequente do seu isolamento e abstinência, uma vez que já fazia muito tempo que não tinha qualquer contato íntimo com algum homem, desde que rompera o noivado pouco antes do casamento, há mais de um ano. 

O noivo, na época, mostrou-se completamente contra o seu trabalho, que dizia roubar não apenas todas as horas do dia, mas que ocupava quase todos os pensamentos dela. Definitivamente, ciência e relacionamento não se misturavam.

E, como sempre, cada vez com maior frequência de noites do que no início, há uns três meses, ele surgia ante ela como uma névoa que se condensava, tocando-a com uma gentileza firme, em toques  tão suaves que era como se uma seda leve deslizasse por sua pele. 

Tendo por maior impressão o perfume de almíscar que preenchia o quarto e o gosto doce e morno dos beijos em sua boca, sempre calmos e gentis como tudo que ele fazia. 
 
 Ela sempre pensava em perguntar o nome dele, mas isso nunca chegava à vontade de fato. O silêncio talvez a inibisse e ela ainda temia que, se verbalizasse algo, aquela magia desapareceria. 

Só que a sua mente era racional e analítica demais para acreditar em sobrenatural. O momento era real, palpavelmente vigoroso, mas que não deixava o menor vestígio ao amanhecer além de mornas sensações no corpo saciado e relaxado. Preferia creditar isso à sua mente que escoava para a inconsciência do sono, levando-a ao mundo de sonho e prazer que não vivia – e que jamais viveu, nem quando ao lado do noivo apaixonado. Aquilo era onírico demais para ser real! 

Nem a dor aguda do início ela sentia mais. O seu corpo já havia se adaptado ao dele, tornando-os duas metades perfeitas, supondo de que dele houvesse um corpo, usando assim na falta de um termo mais apropriado. 

Era sempre carinhoso e gentil, preocupado em dar-lhe prazer e apenas se rendia depois de sentir dela o seu orgasmo, quando finalmente aquele entorpecimento a dominava por completo, caindo em sono profundo e reparador. 

Perfeito demais para ser real. Um dia, quando considerar ter atingido o seu limite no campo das pesquisas biológicas, pretendia se embrenhar na profundidade da psique humana e descobrir em que ponto eram feitas as ilusões tão reais como essas que ela experimentava. 

Ao acordar pela manhã, sempre pontualmente às sete horas, sendo saudada pelos raios dourados de sol que invadiam o quarto pela janela e a banhavam em ouro, Luzmarina encontrava em suas memórias as impressões de seus sonhos sensuais, que se confirmavam apenas sonhos quando se percebia da mesma forma em que dormira, vestida em seu pijama e enrolada sob a colcha quente, sem vestígios de algum visitante noturno, embora o seu corpo, ludibriado por sua mente, demonstrasse os sinais de que havia se preparado para o sexo.

A princípio, Luzmarina ficara muito perturbada com tais evidências, mesmo que as impressões que retinha fossem sempre muito boas. Certificava-se de que a cabana estava bem fechada, sem nenhum sinal de arrombamento. 

Não satisfeita, preparou armadilhas para caso alguém entrasse normalmente pela porta, e elas estavam sempre intactas pela manhã. 

Por duas semanas pesquisou em sites e fóruns na Internet, deixando até mesmo as suas pesquisas de lado. Porém, no início, tudo que encontrou foram umas histórias mais absurdas do que outras, que iam de íncubos da Idade Média até tarados que faziam projeção astral para ter relações com qualquer mulher que estivesse em qualquer parte do globo, até que, por fim, encontrou um site sério sobre psiquiatria, especializado em distúrbios sexuais. 

Porém, agora mais tranquila com as explicações plausíveis e racionais que obteve do tal site, tendo a sua inteligência saciada com a informação correta, Luzmarina havia relaxado e determinado que não consideraria um distúrbio psicológico enquanto aquilo fizesse o bem que lhe fazia. 

Ironicamente, o dia que se seguia após a sua noite de “amor virtual” era dos mais produtivos e que mais rendia frutos em suas pesquisas, tendo uma disposição redobrada, o corpo completamente descansado e a mente muito lúcida, como se aquilo lhe renovasse suas energias vitais.

Continua...

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 3 - Cap 1


As florestas da Península Ibérica são uma das mais antigas da Terra ainda existentes, datando por volta de seis mil anos e, assim como as demais, vêm desaparecendo devido a ação predatória do homem, direta e indiretamente. Essas florestas anciãs estão localizadas hoje nos territórios de Portugal, Espanha, Gibraltar e Andorra, e foram testemunhas da ascensão e queda de muitos impérios, criação e destruição de muitas civilizações, começando pelos Tartessos, anterior ao ano 1.000 a.C.; os Celtas, alguns séculos depois; Gregos; Fenícios; Romanos... que acabaram por formar os povos iberos de hoje. 

A Doutora Luzmarina Lopez, espanhola de Andaluzia, é uma bióloga especializada em biosfera e estuda o impacto ambiental indireto, em que o constante envenenamento do planeta atinge biomas mesmo distantes dos focos da ação. Capaz de abdicar do conforto de uma vida segura na cidade, em companhia da família e amigos, a bióloga pretende, com seus estudos e pesquisas, provar o impacto causado pelas ações do homem mesmo em locais ermos como as florestas da região eurosiberiana da Península Ibérica e, desta forma, mobilizar ações para reparação e proteção ambiental de tais áreas. Assim como muitos jovens, Luzmarina tem por ideal salvar o mundo ou, na pior das hipóteses, deixá-lo um lugar melhor. 

***

Enquanto a bióloga coletava amostras de solo, para medir posteriormente o seu nível de acidez, sentia-se observada até o ponto em que não podia mais ignorar tal sensação incômoda. Agachada sobre a terra, parou as suas anotações para buscar a fonte daquele magnetismo sutil. 

Um lobo-ibero solitário a observava silenciosamente, com o olhar enevoado, como se não a enxergasse de fato. A moça sentiu um arrepio subir da base de sua coluna até a base do crânio, ouriçando os pelos da nuca. 

Ela vinha fazendo coleta de amostras de solo, água e vegetação há meses. Por medida de precaução, mesmo que se afastasse apenas alguns poucos metros da cabana que habitava e que era a sua estação de pesquisas, ela sempre saía preparada para eventuais situações de perigo envolvendo animais selvagens ou humanos sociopatas. A sua pistola estava sempre no coldre do cinto, pronta a ser usada, mas... ela temia o momento de fazê-lo. Afinal, ela era uma cientista que trabalhava em prol da vida e não contra ela. 

O lobo deu dois passos tímidos em sua direção. Dois passos que bem poderiam volver em sentido contrário e deixar ambos, ela e ele, em paz. Os belos olhos amarelos continuavam enevoados como se o animal estivesse sonambúlico. 

Luzmarina ergueu-se lentamente, sem desviar os olhos do lobo, levando a mão ao coldre, destravando a arma. 

Aaron se alarmou, sentindo o cheiro do medo na moça e pressentindo a providência que ela pretendia tomar. Voltou-se ao outro em tom de repreensão: 

" Pare com isso, Uchoa! Você fará a humana matar o pobre coitado! "

Uchoa, um homem-lobo de pele morena e orelhas grandes e peludas que se confundiam com o basto cabelo castanho-acinzentado, estava sobre o galho alto de um Carvalho-vermelho, de onde controlava, sob hipnose, o velho lobo-ibero. Sentado ereto e tão imóvel quanto a própria árvore, sequer os seus olhos ambarinos se moviam. 

" Faz parte do jogo, garoto. O lobo terá que morrer algum dia. "

Aaron, um jovem homem-cerval, travou os dentes de caninos afiados, para não responder com grosseria o companheiro licantropo mais velho, voltando a sua atenção à moça. Um suor frio começava a escorrer por sua tez bronzeada e tensa. Instintivamente, sua mão se fechou no punho da katana, o sabre japonês que portava preso às costas. 

" Seja lá o que ela fizer, não se atreva sequer a se mexer, Aaron. Não gostaria de ter que me indispor contra você. " – Sussurrou o homem-lobo ao ouvir o quase inaudível tilintar da lâmina do sabre contra a bainha. 

Luzmarina estava em pé, ereta e imóvel, não se atrevendo sequer a respirar mais profundamente. Já havia topado com outros animais ao longo dos meses de pesquisa, mas todos eles se mostraram pouco ou nada interessados nela, exceto por uma vez em que uma cobra acabou engatada em seu coturno pelas presas afiadas, e que ela teve de matar para que se soltasse... uma experiência que não gostaria de repetir. Mas o lobo era algumas dezenas de vezes maior que a cobra e, se ele a atacasse, certamente não seria mordendo o seu tornozelo. 

" Por favor, vá embora! Eu não quero ter que machucar você... "– Murmurou para si própria, apenas um ar que mal escapou de sua boca, mas que Aaron e Uchoa ouviram nitidamente. 

" Uchoa! Você a ouviu? Não a obrigue a ferir o pobre velho! "

" Você é um gato desesperado demais, garoto. Não estou obrigando a nada! Se ela ferir o lobo, será por sua própria decisão. "

" Ah, tá! É claro que ela fará isso assim que o lobo avançar para atacá-la! O instinto de sobrevivência prevalece até nos humanos, sabia?! "

" Quem disse que o lobo atacará? "

O animal estava apenas parado, embora não desviasse os olhos de Luzmarina. Ela inspirou fundo, fazendo com que a razão sobrepujasse o medo. O que ela pensava em fazer, afinal? 

A mulher soltou a mão da arma, deixando-a baixar de volta ao coldre, descendo lentamente sua mão para a lateral do corpo, obrigando-se a relaxar. 

" Me desculpe... sou eu quem invado a sua casa. Mas, não estou aqui por mal, acredite. "

Uchoa deu-se por satisfeito com tal resposta e enviou um comando mental dispensando o lobo, que deu meia volta e se embrenhou na mata de onde havia saído. Luzmarina suspirou de alívio, relaxando visivelmente os ombros. 

" Muito obrigada! "

Com passos leves, nas pontas dos pés, Aaron passou para a árvore onde Uchoa estava, sentindo-se, provavelmente, mais aliviado do que a bióloga. 

" Você ainda vai me matar de estresse com essas suas experiências, homem-lobo! O que acha de divertido em fazer esses testes com a humana?! "

Uchoa sorriu, deixando à mostra os caninos afiados, olhando de soslaio para o garoto enquanto se colocava de pé, perfeitamente equilibrado sobre o grosso galho. 

"Não faço isso para me divertir. Apenas quero testar o caráter dela e conferir se é tão bela por dentro quanto o é por fora..."

Continua...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 2 - Cap 2



 
A cabana rústica, construída de toras e pedras, ficava no ponto mais alto da montanha, num pequeno planalto. Ficava parcialmente oculta pelas árvores da floresta, que a seca outonal deixava com o aspecto desolado e lúgubre. 

Mãe-Cegonha varria o terreno entorno da cabana. As folhas ressecadas faziam um barulho áspero em protesto à vassoura de palha que a idosa usava. 

A mulher possuía uma aparência estranha, quase deformada. O corpo grande e redondo era sustentado por pernas finíssimas, que pareciam impossíveis de suportar tamanho peso. Sua pele era branco-amarelada e seus cabelos curtos eram completamente brancos, de textura que lembravam penas. O nariz era longo, fino e adunco, e os olhos, o mais estranho da composição, eram redondos e vermelhos. Certamente, com todas essas qualidades, Mãe-Cegonha não era uma pessoa que agradasse aos olhos exigentes e superficiais. 

Toda a sua beleza estava em sua essência e sua secular sabedoria. 

Quando terminou de juntar todas as folhas dentro do buraco que cavou, para que futuramente adubasse o solo pobre daquela floresta, percebeu a aproximação de um lobo que subia aos trotes pela estradinha que dava acesso à cabana. Seu velho coração ribombou e seus olhos focalizaram de imediato a pequena presa que vinha balançando da boca do lobo. 

Apreensiva, Mãe-Cegonha correu, esquecendo-se até mesmo de largar a vassoura. O cinzento lobo-ibero mais parecia um cão alegre quando parou em frente à idosa, com o filhote de lince-ibérico cuidadosamente preso entre os seus dentes. 

" Oh! Pela... Mãe... Criadora...! "

A mulher estendeu suas mãos de dedos longos e finos, e o lobo depositou ali a sua pequena preciosa carga. Amolecido, o filhote de lince parecia morto. Mãe-Cegonha aconchegou o pequeno em seu busto farto, fechando os seus olhos redondos. Uma luz rosácea piscou do meio de seu peito até se expandir e mergulhar o corpo todo da idosa num clarão intenso. Filetes de energia amorosa envolveram o filhote, preenchendo o corpinho dele e nutrindo emergencialmente suas células debilitadas pela inanição. Quando foi o suficiente, a luz retrocedeu para dentro do chakra cardíaco da mulher, e o lincezinho se mexeu como se despertasse de um sono profundo. 

Mãe-Cegonha olhou para o lobo com olhos rasos d’água. O lobo sorriu intimamente e uma névoa eletrificada surgiu aos seus pés e se expandiu até cobri-lo por inteiro. 

A névoa se alongou e raios de energia faiscaram até que ela se dispersou, revelando um belo rapaz de pele morena e cabelos castanhos acinzentados, de grandes orelhas lupinas e olhos amarelos. 

Sorrindo feliz, deixando à mostra os poderosos caninos, Blasco Uchoa aproximou-se da mulher-cegonha, acariciando com as mãos terminadas em garras afiadas o dorso do filhote de lince, deslizando nos pelos sedosos. O bebê ainda permanecia sonolento nos braços de Mãe-Cegonha. 

" Depois de duzentos anos, a nossa Grande Mãe nos abençoa com um novo homem-cerval... este pequeno lince-ibérico é um de nós, Mãe... é um Encantado! "
Fim da Parte II.
Continua...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 2 - Cap 1

Pequeno e indefeso, o bebê de lince-ibérico fuçava o ventre seco da mãe morta, em busca de leite para saciar a fome de seu frágil corpinho, que já lhe comprimia as entranhas pelos dias que permanecia sem um único grama do sagrado alimento materno. 

Uma doença epidêmica se alastrava pelos campos e florestas de Cantábria, n, na Península Ibérica, levando à morte milhares de animais silvestres e empurrando para as vias da extinção o belo felino lince-ibérico, que já vinha se arrastando em lutas pela sobrevivência e matança indiscriminada por caçadores, e a covarde ação do homem de erradicar os coelhos da região, considerados pragas por eles, porém o principal alimento de animais carnívoros como o lince. 

As tetas secas da fêmea de lince já começavam a se putrefar como todo o resto de seu corpo. O filhote, único ainda vivo da ninhada de quatro bebês nascidos a pouco mais de um mês, não possuía ainda dentes fortes o suficiente para destroçar a carne e aplacar a fome que começava a matá-lo também. 

Seus irmãozinhos morreram um a um: dois capturados por uma loba prenhe e o último por uma águia que mergulhou dos céus sem que fosse percebida. Agora só restava ele, à mercê da sorte, caminhando para a morte lenta da inanição ou para ser a próxima refeição de algum outro animal infeliz que também lutava por sobreviver àqueles dias cinzentos de doenças e seca. 

Desolado e infeliz, o pequeno lince caminhou em seus passinhos trôpegos, ainda mais pela fome e sede que o atormentavam, e saiu da precária segurança que a toca feita num tronco caído proporcionava. 

Venceu os obstáculos e ganhou a clareira chamuscada pelo vento frio e seco que vinha da costa longínqua. Aquele mundo gigantesco, aterrorizante e iluminado demais, deixou o filhote ainda mais tristonho. Ele começou a chorar em ganidos fracos, clamando por uma mãe que não mais existia e que jamais viria buscá-lo. Apesar da fraqueza que ameaçava dominar todo o seu corpinho, os ganidos aumentaram de volume, tornando-se estridentes e histéricos. 

O lincezinho se desesperava diante daquele mundo grande e insensível à sua dor. O pequeno sentia-se, mais do que nunca, abandonado e faminto. Seus ganidos curtos e secos apenas cessaram quando uma movimentação brusca em um arbusto mais à frente chamou sua atenção, aterrorizando-o ainda mais. Os pelos dourados se eriçaram e a cauda curta se espichou. 

Do arbusto, um enorme lobo-ibero saiu a passos cautelosos, e os seus olhos ambarinos perscrutaram o filhote de lince por um longo tempo, até que brilharam de satisfação. 

O instinto de sobrevivência do lince-ibérico o fez recuar e rosnar para aquela horrível ameaça que surgiu à sua frente. Seus olhinhos dourados brilharam de medo e terror. 

Tentou fugir de volta para a toca e a mãe morta, mas os saltinhos de suas perninhas fracas foram totalmente inúteis. Em dois passos o lobo-ibero abocanhou o dorso do filhote, prendendo-o em suas fortes mandíbulas. 

Continua...

sábado, 8 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 1 - Cap 4


Quatro meses separavam Escobar de Okami, em que ele teve de amargar a espera pelo tempo em que o navio levava para cruzar os oceanos, saindo da Espanha para o Japão. 

Nos últimos 100 anos, a maior ilha do arquipélago japonês passou por grandes transformações, verdadeiras revoluções política, social e cultural, com o fim do shogunato na Era Meiji, que se estendeu de 1868 a 1912, sendo levada a duas guerras territoriais, primeiro com a China, depois com a Rússia. Culminou com a Restauração Meiji, desencadeando uma época de guerra civil e muita violência. Não apenas as pessoas sofreram e se destruíram durante essa época conturbada, mas também a Mãe-Terra e seus filhos da fauna e flora. E muitos foram os que pagaram com a extinção pela covardia e canalhice humana. 

Os Lobos-de-Honshu por séculos foram considerados deidades e parceiros do homem em sua luta por sobrevivência. Deidades e parceiros enquanto convinha ao homem. 

Os tempos eram outros. Honshu não era mais uma região sem importância. Ela crescia e sua economia se expandia. E os lobos, outrora deuses, tornaram-se inconvenientes aos interesses comerciais dos japoneses. Um plano diabólico foi posto em prática: a erradicação total da espécie. 

A Era de Trevas pressentida por Okami finalmente irrompeu, levando escuridão total à terra que tanto amava e protegia. E a loucura e o desespero inundaram sua alma e a Treva a devorou, igualmente. 

Sozinha, sem mais seus irmãos Lobos-de-Honshu, que foram todos exterminados por doenças implantadas ao ecossistema e às armadilhas e caçadas, Okami não suportou a dor e a humilhação de ver morrer um a um sem poder, de fato, proteger e evitar que isso acontecesse. 

Ela, o último Lobo-de-Honshu, um ser Encantado, assumiu em definitivo a sua forma-falsa de lobo e se entregou sem luta às mãos dos caçadores. 

E era o seu corpo inerte que estava exposto no Museu Nacional do Japão, taxidermizado. Escobar olhava o corpo empalhado, um boneco bizarro do que um dia fora um ser vivo. Olhava sem enxergar de fato, sem conseguir acreditar. 

A Era de Trevas que sua amada Okami, Raptor de Honshu, preconizou, desabou também sobre Escobar, fazendo-o cair em definitivo no abismo escuro de seu espírito. 

A sombra que assediava seu íntimo, rondando e farejando como uma predadora eficaz, finalmente encontrou a brecha que precisava para entrar e se instalar. A porta larga da perdição havia sido aberta... 

E Escobar se corrompeu.

Fim da Parte 1.
Continua...

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 1 - Cap 3

O processo de amadurecimento de um ser Encantado é muito lento, porém gradual. Capazes de atingir até mil anos de existência, leva-se pelo menos um século para que atinjam a fase adulta. 

Blasco Uchoa estava próximo dos 90 anos. Isso, para os padrões humanos, equivaleria a um jovem adulto. 

Ele se tornou um rapaz de qualidades muito interessantes: persuasivo, diplomático, empático e sedutor. Porém, por conta de sua ainda imaturidade em questões existenciais, era muito extrovertido e inconsequente. 

As demais qualidades que desenvolvia – níveis elevados de protecionismo, astúcia, força e agilidade físicas – levavam a crer que ele se tornaria de fato, algum dia, um Raptor, um guardião eleito pela própria Mãe Natureza para cuidar e defender a flora e a fauna de um meio ambiente específico. 

Mãe-Cegonha estava mais pesada, lenta e cansada. A anciã já ultrapassava os 800 anos. Ela jamais fora uma Raptor, mas pelo tamanho de seu coração, demonstrado por sua benevolência e empatia, ela era considerada uma Matrona, uma Encantada que assume a missão de criar e educar outros Encantados, tal qual uma mãe faz aos seus filhos. Blasco e Miguel eram só dois de dezenas de outros que ela cuidou e educou, sendo que estes dois ainda permaneciam com ela, vivendo sob o mesmo teto no coração da floresta antiga do País Basco, no extremo norte da Espanha. 

Blasco Uchoa treinava armas com duas espadas de lâminas duplas. Depois de tantos anos de ausência de seu mestre Escobar, o rapaz se acostumou a se virar sozinho. De tempos em tempos o homem-lobo-negro se ausentava das florestas do País Basco e essas ausências podiam chegar a uma década. Nos últimos anos, a negligência de Escobar chegou ao ponto de relegar totalmente o seu dever de Raptor a outros Encantados menos capazes, e a educação e o treinamento de seu pupilo igualmente a terceiros. 

A espada, que Uchoa lançou contra o alvo de feno sobre uma rocha, foi interceptada antes de atingir seu objetivo. Um raio metálico passou diante dos olhos do rapaz, enrolando-se na espada curta de lâminas duplas. 

" Ainda está lento demais, garoto! " – Reprovou Escobar, puxando de volta a corrente da sua kusarigama, com a espada de Uchoa presa entre os elos. 

" Não estou treinando velocidade, Escobar! A minha intenção é melhorar a pontaria! "

" Então deve ser mais útil que treine tiro com uma arma de fogo ou arco e flecha. Essas suas espadinhas são armas de corte e perfuração e não para pontarias a longas distâncias. "

Como um típico jovem recém saído da adolescência, Uchoa soltou um muxoxo de aborrecimento e impaciência. Ele começava a achar que Miguel Escobar não tinha mais o direito de criticá-lo. 

" Prefiro aperfeiçoar o meu próprio estilo dentro da técnica que melhor desenvolvi! "

" Então continue, garoto. Quando eu retornar, talvez traga novas armas e técnicas para que você desenvolva... "

" O quê? Como assim?! Não vai me dizer que... Mestre! Você vai se ausentar mais uma vez?! Não faz nem 10 anos que você se afastou da floresta! E nessa última vez permaneceu fora por 12 anos! "
" Questiona a minha conduta, garoto-lobo? O seu treinamento sempre sofreu um grande salto evolutivo em todas as vezes que me ausentei, voltando com novos ensinamentos para você, futuro Raptor! Não são as florestas do País Basco que precisam exatamente da minha presença. "

Escobar se encolerizou, porém mantinha a sua frieza sarcástica que vinha se tornando habitual a ele nos últimos anos. 

Uchoa fechou seu semblante numa carranca de desconten-tamento. Pegou de volta a espada que Escobar lhe estendia.
" Estou de partida para Honshu, no Japão. A situação está muito má para irmãos nossos de lá. "

O rapaz se compadeceu com o tom grave e triste que ouviu na voz de Escobar. Sabia o quanto o seu mestre tinha apreço por Honshu e pelos nativos da ilha japonesa. 

O homem-lobo-negro despediu-se silenciosamente de seu jovem pupilo, dando-lhe as costas e seguindo o rumo de decida da montanha onde morava. Uma nuvem escura de mau presságio passou pelo coração de Uchoa, deixando um ar depressivo e melancólico em sua alma. 

Continua...