terça-feira, 4 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 1 - Cap 2

1830. 

O mundo finalmente despertava para a aurora dos novos tempos. As máquinas começavam, pouco a pouco, a fazer parte deste novo mundo. A monarquia, em muitos países, começava a perder sua força, sendo relegada a títulos de adorno. O povo começava a se instruir e o analfabetismo não era mais tão massificado. Barcos a vapor e a invenção do veículo sobre trilhos, a locomotiva, começavam a acelerar o mundo, reduzindo as distâncias e o tempo. E as armas também se sofisticavam. Não mais arcabuz ou mosquete, mas espingardas e carabinas capazes de disparar tiros com melhor cadência e precisão. 

E o estampido seco do tiro reverberou colina acima, rebatendo em cada uma daquelas velhas árvores da floresta ibérica. A loba atingida ganiu de dor, mas seu apego à vida e o seu instinto materno em conservar viva a sua prole era muito mais forte do que uma bala de ferro. Ela era uma loba-ibérica, cinzenta e delgada. E era mãe de uma pequena ninhada de três filhotes. 

Mesmo se esvaindo em sangue e dor, a loba se recusava a tombar e morrer. Seus três bebês precisavam muito dela e o seu instinto lhe advertia que aqueles homens covardes e perversos fariam mal às suas criancinhas. 

Brava e valente, a loba se esforçou por se manter ameaçadora, com os pelos do dorso em riste e todos os dentes afiados à mostra num sorriso perigoso e feroz. 

Os homens riam enquanto recarregavam as armas. Riam e se aproximavam da mãe ferida que tentava proteger a toca e seus três filhotes. 

Mas, o que ela poderia fazer? Quando o homem decide matar e destruir, nada o demove do seu intento. 

E, por diversão, rindo, um deles aponta a espingarda carregada e dispara contra a cabeça da loba, que esfacela, tirando-lhe totalmente a chance de resistência, a oportunidade de lutar e se defender, o direito de preservar seus filhotes. 

A toca, sob um barranco, não era profunda e não oferecia nenhuma segurança se não houvesse a mãe para defender. Os dois homens chegam chutando o cadáver quente da loba e, com mãos enluvadas, arrancam os filhotes de sua ilusória segurança. 

Os lobinhos choram e reagem feito gente grande, mordendo e arranhando seus algozes, mas o que apenas conseguem são pancadas violentas, não apenas no intuito de domá-los, mas, principalmente, de matá-los. Os homens são caçadores de peles, os chamados “peleiros”, e as peles de lobos filhotes são mais cobiçadas e caras do que as de lobos adultos. 

Um dos filhotes desmaia com a pancada em sua cabeça e imediatamente o caçador começa o seu escalpo, arrancando o couro do animal com ele ainda vivo e semiconsciente. 

Essa tortura e crueldade não era uma exceção. O lobinho não estava sendo tão azarado assim. Animais escalpelados vivos e muitas vezes conscientes é uma rotina entre os peleiros. 

O filhote escalpelado retornou à consciência e ganiu freneticamente em altos brados, utilizando toda a reserva de força para uma vida inteira naquele momento. 

Um dos caçadores, irritado, pisa sobre a cabeça do animal, esmagando-a, calando-o para sempre. E quando o outro se preparava para escalpelar os outros lobinhos, um brilho veloz passa por ele, tão veloz que apenas sente a pressão no ar e o zumbido metálico. Ainda foram necessários alguns instantes para que o homem percebesse que seu braço fora mutilado. 

Quando o outro se deu conta do que acontecia, tratou de recarregar rapidamente a carabina, apontando e atirando contra o vulto que viu entre as árvores, na direção em que partiu o artefato metálico. 

O vulto sumiu assim que explodiu o disparo. E como se materializasse diante dos caçadores, o atacante desceu a lâmina da foice sobre o caçador com a carabina, lhe decepado uma das mãos e retalhando-o do ombro à barriga. 

Apavorados, os homens começaram a gritar e se afastar de arrasto, mas o pavor seria muito maior quando eles enxergassem nitidamente o seu atacante. 

Miguel Escobar revelou-se ante os caçadores. O corpo musculoso mostrava-se nu, em sua forma natural de meio-lobo, meio-homem. De suas garras pendiam uma estranha arma composta de uma pequena foice presa a uma longa corrente de metal com uma esfera de ferro na ponta. Da lâmina ainda pingava o sangue dos homens. 

"Amaldiçoados sejam vocês, canalhas! Como ousam invadir e depredar as minhas terras e matar os irmãos sob a minha guarda?! "

Os caçadores estavam desesperados demais, quase dementes, para emitirem qualquer resposta. Mas, de qualquer forma, isso não interessava ao Encantado Raptor. Ele girou a foice no ar, lançando-a contra os homens. A lâmina, extremamente afiada, degolou a ambos, que caíram em espasmos no chão, sofrendo uma morte lenta, dolorosa e desesperante. Escobar ficou imóvel, apreciando a agonia dos homens até o fim, com gosto e satisfação. Somente quando o último morreu sobre a poça de seu próprio sangue é que o Raptor se deu por saciado, voltando-se para os filhotes sobreviventes. 

Os dois bebês, aterrorizados, prensaram-se contra o fundo da toca. Mesmo com todo aquele pavor, ainda reagiram quando Escobar esticou sua garra para pegá-los. As mordidas, porém, nada lhe fizeram. 

" Ora, ora, pequenos! Acalmem-se! "

O Raptor usou de seu magnetismo para tranquilizar os lobinhos, que se tornaram mansos e letárgicos, sendo aninhados nos braços do homem-lobo-negro. 
O pequeno Encantado, um menininho de 3 anos e aparência lupina, correu ao encontro de seu mestre ao farejar o cheiro dele há metros de distância de onde estava com sua ama-seca. 

Correu desembestado, tropeçando pelas lajotas da ladeira, sob os protestos da mulher-cegonha anciã, sua ama. Mas arranhões e tropeços não importavam ao garotinho. A coisa mais importante do mundo, naquele momento, era rever o homem-lobo que era seu mestre e tinha mais de 300 anos. 

O Raptor sorriu ao ver o pequeno de cabelos castanhos-acinzentados desgrenhados, e olhos vívidos de puro sol de ouro. 

Abaixou-se em frente ao menino-lobo, estendendo a ele os dois lobinhos que vinham adormecidos por hipnose em seus braços. 

" Blasco, garoto! Como um possível Raptor que poderás ser no futuro, desde já é hora de aprenderes a cuidar dos irmãos menores. Estes dois filhotes precisarão muito da tua dedicação. "

Com os olhos brilhando de contentamento, o pequeno Encantado recebe os dois lobinhos em seus braços. Mesmo atrapalhado, o menino abraça-os com todo carinho e cuidado. Ainda incapaz de articular palavras, Blasco sorri mostrando os pontudos dentinhos de leite. Estava feliz e orgulhoso por poder cuidar de dois irmãos lobos. 

" Onde está a mãe desses lobos? "  – Perguntou secamente a mulher-cegonha. Ela chegou no encalço do pequeno Blasco. 

" Morta. Se o terceiro lobo não tivesse emitido ondas vibracionais de desespero, clamando por socorro, eu não teria pressentido e nem esses dois aí estariam vivos agora. Estava longe demais para ouvir algo. "

Mãe-Cegonha fechou os olhos redondos por instantes, numa prece silenciosa. 

" Foram caçadores peleiros? O que fez aos homens, Miguel? "

Um sorrisinho zombeteiro se formou no canto da boca de Escobar. O homem-lobo caminhou para a cabana rústica, deixando uma resposta vaga à anciã. 

" Fiz o que mereciam, somente isso... "

A mulher observou Escobar por sobre o ombro, até ele entrar na cabana. O seu coração de Matrona jamais se engana, pois enxerga com uma lucidez assustadora aquilo que se esconde dos olhos e da razão. 

Suspirou e voltou para a criança Encantada, que se mostrava maravilhada com os bebês lobos que despertavam em seus braços. 
" Vamos entrar, Blasco. Temos que cuidar dos lobinhos. "
O menino-lobo assentiu feliz, passando à frente de Mãe-Cegonha e fazendo o caminho para a cabana aos saltinhos. 

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário