quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 1 - Cap 3

O processo de amadurecimento de um ser Encantado é muito lento, porém gradual. Capazes de atingir até mil anos de existência, leva-se pelo menos um século para que atinjam a fase adulta. 

Blasco Uchoa estava próximo dos 90 anos. Isso, para os padrões humanos, equivaleria a um jovem adulto. 

Ele se tornou um rapaz de qualidades muito interessantes: persuasivo, diplomático, empático e sedutor. Porém, por conta de sua ainda imaturidade em questões existenciais, era muito extrovertido e inconsequente. 

As demais qualidades que desenvolvia – níveis elevados de protecionismo, astúcia, força e agilidade físicas – levavam a crer que ele se tornaria de fato, algum dia, um Raptor, um guardião eleito pela própria Mãe Natureza para cuidar e defender a flora e a fauna de um meio ambiente específico. 

Mãe-Cegonha estava mais pesada, lenta e cansada. A anciã já ultrapassava os 800 anos. Ela jamais fora uma Raptor, mas pelo tamanho de seu coração, demonstrado por sua benevolência e empatia, ela era considerada uma Matrona, uma Encantada que assume a missão de criar e educar outros Encantados, tal qual uma mãe faz aos seus filhos. Blasco e Miguel eram só dois de dezenas de outros que ela cuidou e educou, sendo que estes dois ainda permaneciam com ela, vivendo sob o mesmo teto no coração da floresta antiga do País Basco, no extremo norte da Espanha. 

Blasco Uchoa treinava armas com duas espadas de lâminas duplas. Depois de tantos anos de ausência de seu mestre Escobar, o rapaz se acostumou a se virar sozinho. De tempos em tempos o homem-lobo-negro se ausentava das florestas do País Basco e essas ausências podiam chegar a uma década. Nos últimos anos, a negligência de Escobar chegou ao ponto de relegar totalmente o seu dever de Raptor a outros Encantados menos capazes, e a educação e o treinamento de seu pupilo igualmente a terceiros. 

A espada, que Uchoa lançou contra o alvo de feno sobre uma rocha, foi interceptada antes de atingir seu objetivo. Um raio metálico passou diante dos olhos do rapaz, enrolando-se na espada curta de lâminas duplas. 

" Ainda está lento demais, garoto! " – Reprovou Escobar, puxando de volta a corrente da sua kusarigama, com a espada de Uchoa presa entre os elos. 

" Não estou treinando velocidade, Escobar! A minha intenção é melhorar a pontaria! "

" Então deve ser mais útil que treine tiro com uma arma de fogo ou arco e flecha. Essas suas espadinhas são armas de corte e perfuração e não para pontarias a longas distâncias. "

Como um típico jovem recém saído da adolescência, Uchoa soltou um muxoxo de aborrecimento e impaciência. Ele começava a achar que Miguel Escobar não tinha mais o direito de criticá-lo. 

" Prefiro aperfeiçoar o meu próprio estilo dentro da técnica que melhor desenvolvi! "

" Então continue, garoto. Quando eu retornar, talvez traga novas armas e técnicas para que você desenvolva... "

" O quê? Como assim?! Não vai me dizer que... Mestre! Você vai se ausentar mais uma vez?! Não faz nem 10 anos que você se afastou da floresta! E nessa última vez permaneceu fora por 12 anos! "
" Questiona a minha conduta, garoto-lobo? O seu treinamento sempre sofreu um grande salto evolutivo em todas as vezes que me ausentei, voltando com novos ensinamentos para você, futuro Raptor! Não são as florestas do País Basco que precisam exatamente da minha presença. "

Escobar se encolerizou, porém mantinha a sua frieza sarcástica que vinha se tornando habitual a ele nos últimos anos. 

Uchoa fechou seu semblante numa carranca de desconten-tamento. Pegou de volta a espada que Escobar lhe estendia.
" Estou de partida para Honshu, no Japão. A situação está muito má para irmãos nossos de lá. "

O rapaz se compadeceu com o tom grave e triste que ouviu na voz de Escobar. Sabia o quanto o seu mestre tinha apreço por Honshu e pelos nativos da ilha japonesa. 

O homem-lobo-negro despediu-se silenciosamente de seu jovem pupilo, dando-lhe as costas e seguindo o rumo de decida da montanha onde morava. Uma nuvem escura de mau presságio passou pelo coração de Uchoa, deixando um ar depressivo e melancólico em sua alma. 

Continua...

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