segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 2 - Cap 1

Pequeno e indefeso, o bebê de lince-ibérico fuçava o ventre seco da mãe morta, em busca de leite para saciar a fome de seu frágil corpinho, que já lhe comprimia as entranhas pelos dias que permanecia sem um único grama do sagrado alimento materno. 

Uma doença epidêmica se alastrava pelos campos e florestas de Cantábria, n, na Península Ibérica, levando à morte milhares de animais silvestres e empurrando para as vias da extinção o belo felino lince-ibérico, que já vinha se arrastando em lutas pela sobrevivência e matança indiscriminada por caçadores, e a covarde ação do homem de erradicar os coelhos da região, considerados pragas por eles, porém o principal alimento de animais carnívoros como o lince. 

As tetas secas da fêmea de lince já começavam a se putrefar como todo o resto de seu corpo. O filhote, único ainda vivo da ninhada de quatro bebês nascidos a pouco mais de um mês, não possuía ainda dentes fortes o suficiente para destroçar a carne e aplacar a fome que começava a matá-lo também. 

Seus irmãozinhos morreram um a um: dois capturados por uma loba prenhe e o último por uma águia que mergulhou dos céus sem que fosse percebida. Agora só restava ele, à mercê da sorte, caminhando para a morte lenta da inanição ou para ser a próxima refeição de algum outro animal infeliz que também lutava por sobreviver àqueles dias cinzentos de doenças e seca. 

Desolado e infeliz, o pequeno lince caminhou em seus passinhos trôpegos, ainda mais pela fome e sede que o atormentavam, e saiu da precária segurança que a toca feita num tronco caído proporcionava. 

Venceu os obstáculos e ganhou a clareira chamuscada pelo vento frio e seco que vinha da costa longínqua. Aquele mundo gigantesco, aterrorizante e iluminado demais, deixou o filhote ainda mais tristonho. Ele começou a chorar em ganidos fracos, clamando por uma mãe que não mais existia e que jamais viria buscá-lo. Apesar da fraqueza que ameaçava dominar todo o seu corpinho, os ganidos aumentaram de volume, tornando-se estridentes e histéricos. 

O lincezinho se desesperava diante daquele mundo grande e insensível à sua dor. O pequeno sentia-se, mais do que nunca, abandonado e faminto. Seus ganidos curtos e secos apenas cessaram quando uma movimentação brusca em um arbusto mais à frente chamou sua atenção, aterrorizando-o ainda mais. Os pelos dourados se eriçaram e a cauda curta se espichou. 

Do arbusto, um enorme lobo-ibero saiu a passos cautelosos, e os seus olhos ambarinos perscrutaram o filhote de lince por um longo tempo, até que brilharam de satisfação. 

O instinto de sobrevivência do lince-ibérico o fez recuar e rosnar para aquela horrível ameaça que surgiu à sua frente. Seus olhinhos dourados brilharam de medo e terror. 

Tentou fugir de volta para a toca e a mãe morta, mas os saltinhos de suas perninhas fracas foram totalmente inúteis. Em dois passos o lobo-ibero abocanhou o dorso do filhote, prendendo-o em suas fortes mandíbulas. 

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário