terça-feira, 18 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 2 - Cap 2



 
A cabana rústica, construída de toras e pedras, ficava no ponto mais alto da montanha, num pequeno planalto. Ficava parcialmente oculta pelas árvores da floresta, que a seca outonal deixava com o aspecto desolado e lúgubre. 

Mãe-Cegonha varria o terreno entorno da cabana. As folhas ressecadas faziam um barulho áspero em protesto à vassoura de palha que a idosa usava. 

A mulher possuía uma aparência estranha, quase deformada. O corpo grande e redondo era sustentado por pernas finíssimas, que pareciam impossíveis de suportar tamanho peso. Sua pele era branco-amarelada e seus cabelos curtos eram completamente brancos, de textura que lembravam penas. O nariz era longo, fino e adunco, e os olhos, o mais estranho da composição, eram redondos e vermelhos. Certamente, com todas essas qualidades, Mãe-Cegonha não era uma pessoa que agradasse aos olhos exigentes e superficiais. 

Toda a sua beleza estava em sua essência e sua secular sabedoria. 

Quando terminou de juntar todas as folhas dentro do buraco que cavou, para que futuramente adubasse o solo pobre daquela floresta, percebeu a aproximação de um lobo que subia aos trotes pela estradinha que dava acesso à cabana. Seu velho coração ribombou e seus olhos focalizaram de imediato a pequena presa que vinha balançando da boca do lobo. 

Apreensiva, Mãe-Cegonha correu, esquecendo-se até mesmo de largar a vassoura. O cinzento lobo-ibero mais parecia um cão alegre quando parou em frente à idosa, com o filhote de lince-ibérico cuidadosamente preso entre os seus dentes. 

" Oh! Pela... Mãe... Criadora...! "

A mulher estendeu suas mãos de dedos longos e finos, e o lobo depositou ali a sua pequena preciosa carga. Amolecido, o filhote de lince parecia morto. Mãe-Cegonha aconchegou o pequeno em seu busto farto, fechando os seus olhos redondos. Uma luz rosácea piscou do meio de seu peito até se expandir e mergulhar o corpo todo da idosa num clarão intenso. Filetes de energia amorosa envolveram o filhote, preenchendo o corpinho dele e nutrindo emergencialmente suas células debilitadas pela inanição. Quando foi o suficiente, a luz retrocedeu para dentro do chakra cardíaco da mulher, e o lincezinho se mexeu como se despertasse de um sono profundo. 

Mãe-Cegonha olhou para o lobo com olhos rasos d’água. O lobo sorriu intimamente e uma névoa eletrificada surgiu aos seus pés e se expandiu até cobri-lo por inteiro. 

A névoa se alongou e raios de energia faiscaram até que ela se dispersou, revelando um belo rapaz de pele morena e cabelos castanhos acinzentados, de grandes orelhas lupinas e olhos amarelos. 

Sorrindo feliz, deixando à mostra os poderosos caninos, Blasco Uchoa aproximou-se da mulher-cegonha, acariciando com as mãos terminadas em garras afiadas o dorso do filhote de lince, deslizando nos pelos sedosos. O bebê ainda permanecia sonolento nos braços de Mãe-Cegonha. 

" Depois de duzentos anos, a nossa Grande Mãe nos abençoa com um novo homem-cerval... este pequeno lince-ibérico é um de nós, Mãe... é um Encantado! "
Fim da Parte II.
Continua...

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