quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 3 - Cap 1


As florestas da Península Ibérica são uma das mais antigas da Terra ainda existentes, datando por volta de seis mil anos e, assim como as demais, vêm desaparecendo devido a ação predatória do homem, direta e indiretamente. Essas florestas anciãs estão localizadas hoje nos territórios de Portugal, Espanha, Gibraltar e Andorra, e foram testemunhas da ascensão e queda de muitos impérios, criação e destruição de muitas civilizações, começando pelos Tartessos, anterior ao ano 1.000 a.C.; os Celtas, alguns séculos depois; Gregos; Fenícios; Romanos... que acabaram por formar os povos iberos de hoje. 

A Doutora Luzmarina Lopez, espanhola de Andaluzia, é uma bióloga especializada em biosfera e estuda o impacto ambiental indireto, em que o constante envenenamento do planeta atinge biomas mesmo distantes dos focos da ação. Capaz de abdicar do conforto de uma vida segura na cidade, em companhia da família e amigos, a bióloga pretende, com seus estudos e pesquisas, provar o impacto causado pelas ações do homem mesmo em locais ermos como as florestas da região eurosiberiana da Península Ibérica e, desta forma, mobilizar ações para reparação e proteção ambiental de tais áreas. Assim como muitos jovens, Luzmarina tem por ideal salvar o mundo ou, na pior das hipóteses, deixá-lo um lugar melhor. 

***

Enquanto a bióloga coletava amostras de solo, para medir posteriormente o seu nível de acidez, sentia-se observada até o ponto em que não podia mais ignorar tal sensação incômoda. Agachada sobre a terra, parou as suas anotações para buscar a fonte daquele magnetismo sutil. 

Um lobo-ibero solitário a observava silenciosamente, com o olhar enevoado, como se não a enxergasse de fato. A moça sentiu um arrepio subir da base de sua coluna até a base do crânio, ouriçando os pelos da nuca. 

Ela vinha fazendo coleta de amostras de solo, água e vegetação há meses. Por medida de precaução, mesmo que se afastasse apenas alguns poucos metros da cabana que habitava e que era a sua estação de pesquisas, ela sempre saía preparada para eventuais situações de perigo envolvendo animais selvagens ou humanos sociopatas. A sua pistola estava sempre no coldre do cinto, pronta a ser usada, mas... ela temia o momento de fazê-lo. Afinal, ela era uma cientista que trabalhava em prol da vida e não contra ela. 

O lobo deu dois passos tímidos em sua direção. Dois passos que bem poderiam volver em sentido contrário e deixar ambos, ela e ele, em paz. Os belos olhos amarelos continuavam enevoados como se o animal estivesse sonambúlico. 

Luzmarina ergueu-se lentamente, sem desviar os olhos do lobo, levando a mão ao coldre, destravando a arma. 

Aaron se alarmou, sentindo o cheiro do medo na moça e pressentindo a providência que ela pretendia tomar. Voltou-se ao outro em tom de repreensão: 

" Pare com isso, Uchoa! Você fará a humana matar o pobre coitado! "

Uchoa, um homem-lobo de pele morena e orelhas grandes e peludas que se confundiam com o basto cabelo castanho-acinzentado, estava sobre o galho alto de um Carvalho-vermelho, de onde controlava, sob hipnose, o velho lobo-ibero. Sentado ereto e tão imóvel quanto a própria árvore, sequer os seus olhos ambarinos se moviam. 

" Faz parte do jogo, garoto. O lobo terá que morrer algum dia. "

Aaron, um jovem homem-cerval, travou os dentes de caninos afiados, para não responder com grosseria o companheiro licantropo mais velho, voltando a sua atenção à moça. Um suor frio começava a escorrer por sua tez bronzeada e tensa. Instintivamente, sua mão se fechou no punho da katana, o sabre japonês que portava preso às costas. 

" Seja lá o que ela fizer, não se atreva sequer a se mexer, Aaron. Não gostaria de ter que me indispor contra você. " – Sussurrou o homem-lobo ao ouvir o quase inaudível tilintar da lâmina do sabre contra a bainha. 

Luzmarina estava em pé, ereta e imóvel, não se atrevendo sequer a respirar mais profundamente. Já havia topado com outros animais ao longo dos meses de pesquisa, mas todos eles se mostraram pouco ou nada interessados nela, exceto por uma vez em que uma cobra acabou engatada em seu coturno pelas presas afiadas, e que ela teve de matar para que se soltasse... uma experiência que não gostaria de repetir. Mas o lobo era algumas dezenas de vezes maior que a cobra e, se ele a atacasse, certamente não seria mordendo o seu tornozelo. 

" Por favor, vá embora! Eu não quero ter que machucar você... "– Murmurou para si própria, apenas um ar que mal escapou de sua boca, mas que Aaron e Uchoa ouviram nitidamente. 

" Uchoa! Você a ouviu? Não a obrigue a ferir o pobre velho! "

" Você é um gato desesperado demais, garoto. Não estou obrigando a nada! Se ela ferir o lobo, será por sua própria decisão. "

" Ah, tá! É claro que ela fará isso assim que o lobo avançar para atacá-la! O instinto de sobrevivência prevalece até nos humanos, sabia?! "

" Quem disse que o lobo atacará? "

O animal estava apenas parado, embora não desviasse os olhos de Luzmarina. Ela inspirou fundo, fazendo com que a razão sobrepujasse o medo. O que ela pensava em fazer, afinal? 

A mulher soltou a mão da arma, deixando-a baixar de volta ao coldre, descendo lentamente sua mão para a lateral do corpo, obrigando-se a relaxar. 

" Me desculpe... sou eu quem invado a sua casa. Mas, não estou aqui por mal, acredite. "

Uchoa deu-se por satisfeito com tal resposta e enviou um comando mental dispensando o lobo, que deu meia volta e se embrenhou na mata de onde havia saído. Luzmarina suspirou de alívio, relaxando visivelmente os ombros. 

" Muito obrigada! "

Com passos leves, nas pontas dos pés, Aaron passou para a árvore onde Uchoa estava, sentindo-se, provavelmente, mais aliviado do que a bióloga. 

" Você ainda vai me matar de estresse com essas suas experiências, homem-lobo! O que acha de divertido em fazer esses testes com a humana?! "

Uchoa sorriu, deixando à mostra os caninos afiados, olhando de soslaio para o garoto enquanto se colocava de pé, perfeitamente equilibrado sobre o grosso galho. 

"Não faço isso para me divertir. Apenas quero testar o caráter dela e conferir se é tão bela por dentro quanto o é por fora..."

Continua...

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