sábado, 22 de outubro de 2016

Raptores Ep 1 - Parte 3 - Cap 2


Após passar horas investigando as amostras coletadas no dia, fazendo anotações e pesquisando pela Internet e por livros eletrônicos, o corpo de Luzmarina dava os sinais da exaustão que ela tanto detestava. 

Quanto mais pesquisava e estudava, mais ela descobria que muito mais precisava ser feito, e as vinte e quatro horas do dia eram escassas demais, principalmente quando ela ainda tinha que separar algumas dessas horas para as necessidades básicas e indispensáveis do corpo, sendo que o sono lhe roubava preciosas sete horas, tempo esse que ela não conseguia reduzir de jeito nenhum. 

Enfiou-se debaixo do chuveiro na esperança de que a água quente aliviasse as dores do pescoço e ombros, causadas pelas longas horas encurvada sobre o microscópio e o computador. 

E era quase como uma sonâmbula que se encaminhava para a cama de campanha, porém ampla, confortável e quente, caindo sobre ela como se caísse em nuvens, pois mal sentia o atrito de seu corpo entre o colchão e o acolchoado. 

Era nesse momento da semi-inconsciência, que se preparava para o sono profundo, em que Luzmarina era arrebatada para as sensações que extrapolavam os limites do corpo, alcançando a inconsciência. 

E, pela manhã, quando acordava, apenas tinha a vaga lembrança do ato como um sonho bom e prazeroso, em que ela sempre se convencia de que era efeito consequente do seu isolamento e abstinência, uma vez que já fazia muito tempo que não tinha qualquer contato íntimo com algum homem, desde que rompera o noivado pouco antes do casamento, há mais de um ano. 

O noivo, na época, mostrou-se completamente contra o seu trabalho, que dizia roubar não apenas todas as horas do dia, mas que ocupava quase todos os pensamentos dela. Definitivamente, ciência e relacionamento não se misturavam.

E, como sempre, cada vez com maior frequência de noites do que no início, há uns três meses, ele surgia ante ela como uma névoa que se condensava, tocando-a com uma gentileza firme, em toques  tão suaves que era como se uma seda leve deslizasse por sua pele. 

Tendo por maior impressão o perfume de almíscar que preenchia o quarto e o gosto doce e morno dos beijos em sua boca, sempre calmos e gentis como tudo que ele fazia. 
 
 Ela sempre pensava em perguntar o nome dele, mas isso nunca chegava à vontade de fato. O silêncio talvez a inibisse e ela ainda temia que, se verbalizasse algo, aquela magia desapareceria. 

Só que a sua mente era racional e analítica demais para acreditar em sobrenatural. O momento era real, palpavelmente vigoroso, mas que não deixava o menor vestígio ao amanhecer além de mornas sensações no corpo saciado e relaxado. Preferia creditar isso à sua mente que escoava para a inconsciência do sono, levando-a ao mundo de sonho e prazer que não vivia – e que jamais viveu, nem quando ao lado do noivo apaixonado. Aquilo era onírico demais para ser real! 

Nem a dor aguda do início ela sentia mais. O seu corpo já havia se adaptado ao dele, tornando-os duas metades perfeitas, supondo de que dele houvesse um corpo, usando assim na falta de um termo mais apropriado. 

Era sempre carinhoso e gentil, preocupado em dar-lhe prazer e apenas se rendia depois de sentir dela o seu orgasmo, quando finalmente aquele entorpecimento a dominava por completo, caindo em sono profundo e reparador. 

Perfeito demais para ser real. Um dia, quando considerar ter atingido o seu limite no campo das pesquisas biológicas, pretendia se embrenhar na profundidade da psique humana e descobrir em que ponto eram feitas as ilusões tão reais como essas que ela experimentava. 

Ao acordar pela manhã, sempre pontualmente às sete horas, sendo saudada pelos raios dourados de sol que invadiam o quarto pela janela e a banhavam em ouro, Luzmarina encontrava em suas memórias as impressões de seus sonhos sensuais, que se confirmavam apenas sonhos quando se percebia da mesma forma em que dormira, vestida em seu pijama e enrolada sob a colcha quente, sem vestígios de algum visitante noturno, embora o seu corpo, ludibriado por sua mente, demonstrasse os sinais de que havia se preparado para o sexo.

A princípio, Luzmarina ficara muito perturbada com tais evidências, mesmo que as impressões que retinha fossem sempre muito boas. Certificava-se de que a cabana estava bem fechada, sem nenhum sinal de arrombamento. 

Não satisfeita, preparou armadilhas para caso alguém entrasse normalmente pela porta, e elas estavam sempre intactas pela manhã. 

Por duas semanas pesquisou em sites e fóruns na Internet, deixando até mesmo as suas pesquisas de lado. Porém, no início, tudo que encontrou foram umas histórias mais absurdas do que outras, que iam de íncubos da Idade Média até tarados que faziam projeção astral para ter relações com qualquer mulher que estivesse em qualquer parte do globo, até que, por fim, encontrou um site sério sobre psiquiatria, especializado em distúrbios sexuais. 

Porém, agora mais tranquila com as explicações plausíveis e racionais que obteve do tal site, tendo a sua inteligência saciada com a informação correta, Luzmarina havia relaxado e determinado que não consideraria um distúrbio psicológico enquanto aquilo fizesse o bem que lhe fazia. 

Ironicamente, o dia que se seguia após a sua noite de “amor virtual” era dos mais produtivos e que mais rendia frutos em suas pesquisas, tendo uma disposição redobrada, o corpo completamente descansado e a mente muito lúcida, como se aquilo lhe renovasse suas energias vitais.

Continua...

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